HISTERIA

28/04/13

Trecho

"Atrás dela, uma mulher prepara chá para o marido morto. Ele está morto? Ou só fugiu? Esme não se lembra. Outra mulher está procurando água para colocar nas flores que morreram faz muito tempo numa cidade à beira do mar não longe daqui. São sempre as tarefas sem sentido que permanecem: lavar, cozinhar, limpar. Nunca nada majestoso ou significativo, só os pequeninos rituais que mantêm a costura da vida humana."

O último ato de Esme Lennox — Maggie O'Farrel

Ilu.

Gordo

Estava eu caminhando na rua em busca de fotografias, quando passo pela casa de uma vizinha, conhecida de anos. Cumprimento, sou uma pessoa muito simpática, muito educada, né. Ela me cumprimenta de volta, a neta dela também — aliás, neta dela voltou da cidade grande acho que não faz muito, foi tentar a sorte e não  conseguiu. Já foi muito minha amiga, ela —, e eu prossigo meu caminho, até que a vizinha solta a seguinte pérola:

— Tá muito gordo!

E deram risada, as duas.

Na volta, eu disse que, da próxima vez que voltasse de férias, eu ia voltar magro e ia lá pra ela ver. Acho que ela deve ter pensado que eu fiquei ofendido.

Não fiquei.

Depois que voltei pra casa, fui correr.

Ilu.

26/04/13

O que é preciso para ser feliz?


A felicidade é o que toda pessoa neste mundo merece. É o que eu acredito. A felicidade não é aquele estado de alegria eufórica constante, de uma sempre excitação, mas, sim, um sentimento de segurança, de bem-estar e cumplicidade com as pessoas com que convivemos. Felicidade é cumplicidade, mesmo nos piores momentos. Uma pessoa feliz pode se sentir preocupada, angustiada, ou com raiva em alguns momentos. Isso não quer dizer que ela não é feliz, só quer dizer que ela é humana, e um humano pode criar vários sentimentos, mesmo durante um único dia. 

Quando as mudanças acontecem, nós devemos acompanhá-las, senão ficamos para trás. Hoje tudo acontece muito rápido, isso é incontestável, me diga quantas vezes você já foi dormir sentindo que o dia havia passado muito rápido e que ainda faltava milhares de coisas a serem feitas? Parece que essa é uma sensação quase obrigatória ao deitarmos a cabeça no travesseiro. São metas a serem cumpridas, prazos esgotados, contas a pagar. Dizem que a depressão é o mal do século e, eu digo, que junto com ela temos o materialismo: a sensação de que apenas o dinheiro e a estabilidade de bens materiais trazem a felicidade. Mas isso não é verdade. Claro, de amor ninguém vive: temos contas a pagar e precisamos de roupas, comida e um teto! Ah, e o aluguel hoje está tão caro… Essa estabilidade financeira é a meta de vida da maioria das pessoas que eu conheço. Minha também, admito. Mas não é a minha prioridade, embora, como já disseram algumas amigas, eu seja um pobre soberbo — beijos Rochelle!

O casamento é visto por mim, como a união de duas pessoas em um equipe, que decide viver junto e vencer os desafios que se impõem entre a dupla e a felicidade. Dois amigos, uma equipe, um time disposto a percorrer a estrada dos tijolos amarelos, disposto a permanecer junto, não importa o que aconteça. E, geralmente, se há um pingo de amor e cumplicidade, esse time consegue "vencer" na vida: eles criam filhos, conseguem financiar uma casa e até compram um carro. Mas muitos casais não são felizes. E é difícil acreditar, porque eles têm tudo, eles têm a felicidade nas mãos, eles moram em meio a felicidade. Mas não conseguem… ser felizes. A alegria vem. A alegria vai. A tristeza vem. A tristeza vai. A tristeza volta. A alegria não.

Eu não sei se há algum momento em que os interesses do casal mudam e começam a contrastar entre si, ou se é uma mudança gradual que torna duas pessoas, antes tão unidas, em duas coisas tão diferentes, capazes de dizer coisas horríveis um ao outro, proclamar promessas de morte e infelicidade eterna. Não sei o porquê dessas pessoas continuarem juntas, buscando uma felicidade inalcançável devida à grande mágoa entre elas. Dívidas no mercado, financiamentos no banco, roupas de inverno para os filhos, compra de material escolar. Mentira, omissão e orgulho. Tristeza, ilusão e decepção. A busca por felicidade engloba todas essas variantes, seja você um adolescente, uma pessoa adulta, casada ou solteira. Eu gostaria de dizer que nós devemos separar esses sentimentos das pessoas e que devemos estar abertos a tudo o que o outro tem a nos dar. As pessoas moldam umas às outras, elas se criam, recriam, se desmancham e se renovam, e o orgulho tem um lugar bem pequeno nesse ciclo. Eu gostaria de dizer que o sorriso de um amigo importa mais que o dinheiro, que o companheirismo não pode ser comprado, que o prazer de dançar e ler um livro é inigualável e fotografar um momento especial é único. Eu gostaria de dizer que estar apaixonado é uma das coisas mais incríveis que podem acontecer a uma pessoa, mas, para a maioria das pessoas com quem convivo — espero que não seja o caso dos meus leitores —, estar apaixonado, nem que seja pela vida, não vale muita coisa.


Ilu.